REPOSITORIO PUCSP Teses e Dissertações dos Programas de Pós-Graduação da PUC-SP Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia: Psicologia Social
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Tipo: Tese
Título: Quando morre um filho, morre também uma mãe: violência de Estado e descolonização
Título(s) alternativo(s): When a son dies, a mother also dies. State Violence and Decolonization
Autor(es): Aguiar, Claudia Cristina Trigo de
Primeiro Orientador: Vicentin, Maria Cristina Gonçalves
Resumo: Nesta pesquisa, realizada com o movimento Mães em Luto da Zona Leste (São Paulo, capital), constituído por mães e familiares, cujos filhos foram executados por agentes do Estado, consideramos o sofrimento das mães, que se dizem mortas-vivas, em certa radicalidade e apostamos que a enunciação e a circulação públicas de suas palavras e silêncios interrogam lógicas que engendram o genocídio de jovens negros. Na perspectiva metodológica da pesquisa intervenção cartográfica acompanhamos mães e familiares em diferentes contextos e dispositivos de escuta e enunciação – falas e audiências públicas, encontros de seus movimentos, entrevistas e rodas de conversa com mães e atores de políticas públicas e por um dispositivo grupal clínicopolítico de escrita que resultou no livro Mães em Luta. As transcrições e anotações de diários resultantes deste acompanhamento são apresentadas na forma de narrativas que condensam uma dimensão analisadora da experiência das mães. Apresentamos tais narrativas como textos de abertura ou no percurso do que nomeamos como Trilha. As cinco Trilhas articulam as narrativas à perspectiva analítica do feminismo, dos estudos de Mbembe e Fanon em torno da colonização/descolonização, da leitura clínico-política do sofrimento e dos impactos psicossociais da violência de Estado. Compreendemos que essas mortes de jovens regulam o acesso à maternidade das mulheres negras, atualizando a experiência da escravização, por meio de políticas de morte construídas pelo racismo, tornando-as alvos da violência de Estado. Entretanto, a violência que atinge seus corpos é anterior àquela que atinge seus filhos. A luta destas mulheres revela um modo de gestão da cidade em que a violência de Estado incide, simultaneamente, nos corpos dos jovens negros, no acesso à / na maternidade e nos territórios, produzindo contextos de massacre de jovens. Para fazer justiça à morte do filho, percorrem um trajeto pelo sistema de justiça, onde lhes são impostos um filho criminoso e uma família desestruturada. Desmentidos recorrentes frente às demandas de justiça das mães privatizam o dano sofrido, operando outro massacre voltado aos seus modos de maternagem. Numa perspectiva clínico-política problematizamos o trauma e a melancolia como psicopatologias que disputam presença nestes contextos. A execução dos filhos é intolerável, lançando-as à condição de morte-em-vida: quando morre um filho morre, também uma mãe, como dizem. Ainda, algumas fazem de seus corpos a presença de seus filhos, testemunho em carne viva, uma luta contra o esquecimento. Tal sofrimento atinge familiares, território e sociedade, por gerações. A impunidade produz uma torturante repetição do trauma. Propusemos a revolta como o rastro do intolerável, vivido como insurgência corporal. Não há retorno para um mundo destruído, esta é a radicalidade do sofrimento traumático. Para (re)viverem, é a (re)volta que possibilita (re)inventarem suas vidas, um trabalho de não morrer completamente. Esta possibilidade depende do reconhecimento social deste sofrimento, impondo a tarefa de colapsar as lógicas que produzem esses corpos como criminosos. Afirmamos a clínica nestes contextos como resistência e indissociável do debate sobre a reparação política e social frente a crimes da escravização e outras violências de Estado que sustentam o silenciamento diante do genocídio de jovens negros
Abstract: In this research, carried out with the Mães em Luto da Zona Leste (East Zone Mothers in Mourning) movement (São Paulo, capital), set up by mothers and family members whose sons were murdered by state agents, we considered the suffering of the mothers, who call themselves living dead, in a certain radicality and we bet that the public enunciation and circulation of their words and silences question the logic that engender the black youth genocide. In the methodological perspective of the cartographic intervention research, we followed mothers and family members in different contexts and listening and enunciation devices - talks and public hearings, their movements’ meetings, interviews and conversation circles with mothers and public policy actors and through a clinical-political writing group device that evolved into a book: Mães em Luta (Mothers in Struggle). The transcripts and diary notes resulting from this monitoring are presented in the form of narratives that condense an analyzing dimension of the mothers' experience. We present such narratives as opening texts or in the course of what we call ‘trail’. The five trails articulate the narratives with the analytical perspective of feminism, the studies by Mbembe and Fanon on colonization/decolonization, the clinical and political reading of suffering and the psychosocial impacts of State violence. We understand that these youths’ deaths regulate black women's access to maternity, updating the experience of enslavement, through death policies built by racism, making them targets of state violence. However, the violence that affects their bodies is prior to the one which affects their offspring. The struggle of these women reveals a way of managing the city in which state violence affects, simultaneously, bodies, access to / in motherhood and territories, producing contexts of youth massacre. To demand justice against their son's death, they travel through the justice system, where a criminal son and a broken family are imposed on them. Recurring denials to the mothers' demands for justice privatize the damage suffered, operating another massacre aimed at their ways of mothering. From a clinical-political perspective, we problematize trauma and melancholia as psychopathologies that dispute their presence in these contexts. The sons’ murder is intolerable, throwing the mothers into the condition of living death: when a son dies, a mother also dies, as they say. Furthermore, some make their bodies the presence of their children, raw flesh testimony, a fight against oblivion. Such suffering affects family members, territory and society for generations. Impunity produces an excruciating repetition of trauma. We have proposed the revolt as the trace of the intolerable, lived as a bodily insurgency. There is no return to a destroyed world, this is the radicality of traumatic suffering. In order to (re)live, it is the revolt that makes it possible to (re)invent their lives, a work of not dying completely. This possibility depends on the social recognition of this suffering, imposing the task of collapsing the logic that produce these bodies as criminals. Thus, we have to affirm the clinic as resistance, inseparable from the debate on political and social reparation in the face of crimes of enslavement and other state violence that sustain silence before the black youth genocide
Palavras-chave: Maternidade
Juventude
Racismo
Maternity
Youth
Racism
CNPq: CNPQ::CIENCIAS HUMANAS::PSICOLOGIA::PSICOLOGIA SOCIAL
Idioma: por
País: Brasil
Editor: Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
Sigla da Instituição: PUC-SP
metadata.dc.publisher.department: Faculdade de Ciências Humanas e da Saúde
metadata.dc.publisher.program: Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia: Psicologia Social
Citação: Aguiar, Claudia Cristina Trigo de. Quando morre um filho, morre também uma mãe: violência de Estado e descolonização. 2021. Tese (Doutorado em Psicologia: Psicologia Social) - Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia: Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2021.
Tipo de Acesso: Acesso Aberto
URI: https://repositorio.pucsp.br/jspui/handle/handle/24854
Data do documento: 30-Nov-2021
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